76. Amar um gato
Estar perto e presente na proximidade: eis o que aprendi sobre amar com os animais
Uma caixa de fósforo na região central de Porto Alegre foi o primeiro lugar que escolhi para viver sozinha. Arranquei o carpete daquele apartamento com as mãos, mas não cliquei o piso laminado. Passei um mês tomando banho frio até ter dinheiro suficiente para trocar o aquecedor a gás do chuveiro. Trouxe a televisão do quarto de infância, um quadrado miúdo cuja trilha sonora de âncoras de telejornal me fez companhia enquanto eu aprendia a cozinhar, limpar e viver no mundo. Ganhei um sofá que balançava de uma amiga que ainda me daria muitos presentes.
Mas uma casa nunca o foi de fato sem que entre suas paredes ecoasse o desconhecido idioma de um animal. Sebastião chegou para cantar sob aquele teto o quanto quisesse, mas não fez sua canção de imediato.
Para conquistar o amor de um gato, é necessário uma promessa de constância. “Seremos os melhores amigos do mundo”, eu prometi em sua chegada - um dos braços enfiado embaixo da cama, a mão ensejando conversa. Depois disso, esperei.
O ano era 2014, tudo acontecia no Mundo e Porto Alegre era maravilhosa. Céus, eu era maravilhosa (caminhava entre esperanças e novidades) –, mas não havia o que me livrasse de certa ansiedade pelo reencontro com o gato a cada separação. Porque quando Tião decidiu que era hora do mundo ouvir sua música, ele cantou até o fim.
Sebastião nasceu com uma daquelas doenças que encurta em muito o tempo dos gatos, mas viveu quase sete anos quando poderia não ter passado dos dois. Fomos inseparáveis e felizes; foram (ainda são) dele minha constância, meu coração.
Pertencer a alguém é uma escolha agridoce – uma que implica por lógica deixar de pertencer a si. Jamais ousaria dizer o que sente um gato, mas, enquanto vivi com aquele, senti uma doação amorosa que jamais se perdia de vista: proximidade e presença. A entrega possível: estávamos perto, prestávamos atenção (em tudo ao meu amor serei atento). Compartilhávamos a cama e a vida com um entendimento tácito: o de que aquilo era um privilégio.
(Talvez seja por isso que, ainda hoje, eu me sinta mais aceita no amor dos animais, que têm a si e escolhem a quem pertencer. Mesmo os cães, ditos subservientes, sabem muito bem que a vida só é boa quando se é cúmplice bem juntinho. Perder-se de si e ficar longe do outro enfraquece o coração.)
Ainda hoje acredito que Sebastião poderia ter vivido mais, ter vivido melhor. Talvez tenha sido o medo do cachorro que eu trouxe para o apartamento em 2019 – a tristeza por ver minha atenção dividida – que o adoeceu irreversivelmente, depois de tantas crises menores que superamos juntos. Lembro de, ao saber da sua morte, chorar junto com a veterinária, que perguntou se queria me despedir. Disse que não. Preferia mantê-lo vivo, luminoso.
Quando me pedem para voltar o pensamento para deus, o meu sempre se volta para o gato. Em 2016, um garoto chamado Theo tirou uma fotografia enquanto eu sonhava e depois foi embora sem que eu acordasse. No dia seguinte, recebi esse presente (com a alegria de quem reconhece imediatamente algo que lhe será especial dali em diante). A morte me separou do gato. A separação me separou da foto impressa.
Não sei se algum dia meu colo deixará de se fazer quente ao pensar em meu pequeno deus-gato tonitruante, mas devo a ele o que sei que o deus - o que o amor é: estar perto, estar presente.






